A terceira margem de Janjão

Sobre a superfície fluida da água está confortável como na concretude da sala de casa. Por tão longa e intensa convivência marítima, é provável que sinta inveja do peixe. Inveja todavia saudável, formada por admiração e respeito. Como menos lhe interessa agora caminhar distâncias com os pés, segue adiante aonde velas e ventos o levam por esses mares.

Em seu metafísico conto A Terceira Margem do Rio, Guimarães Rosa mostra um homem que, sem motivo aparente, embarca em uma canoa e abandona a família para sempre. Passam-se meses, anos, nunca mais aporta, é visto apenas a descer e a subir o rio. Criou para si mesmo uma terceira margem, que apenas ele sabe qual é, como é e para que é. Água feita para mergulhar no mistério, líquido vivo da memória uterina que transcende os dias materiais em que todos nós vivemos, de coisas pequenas e transitórias, necessárias para a juventude mas de curto alcance para a maturidade.

João Octavio Calmon Navarro Ribeiro vive enfurnado no barco, tal como Mestre Jonas no ventre da baleia. Advogado que abandonou a gravata e o escritório em favor da obediência às leis da natureza. Seu apelido é agora seu nome oficial: Janjão. Inesquecível sua voz grave, pausada, de quem não tem pressa e pretende levar a conversa longe. Não sei por onde tem velejado, se está em Fort Lauderdale, na Flórida, logo partindo em direção ao Caribe e depois a Fernando de Noronha. Também pode ser que hoje esteja em São Paulo, ancorado em Paraty ou Guarujá. Quem sabe, mais tarde, quando tudo ajudar, suba o Atlântico e dê uma chegadinha à Europa novamente. Diante de seu lastro oceânico e de sua bússola existencial, Lig, o filho, e Ique, o neto, são ainda marinheiros de água doce.

Além da honrosa e merecida distinção de ser Comodoro do Cruzeiro da Costa Leste, recebe a homenagem em letra, música e afeto de dois navegadores, Suzi e Vitor, que compuseram e apresentam Lobo do Mar. Assim você conhece em versão cantada aquele que percorre soberano a terceira margem do próprio rio.

Ulisses, para se proteger do canto das sereias, amarrou-se ao mastro, vedou olhos e ouvidos. Algo que Janjão certamente não faria, certo que mais vale o encanto do canto do mar que uma odisseia heroica. Enfim, em resumo, chego a suspeitar que tudo em relação ao Lobo do Mar se deve a um simples e pequeno detalhe: Janjão não usa salva-vidas. Não precisa. A vida já está salva.

Deva

Texto em homenagem ao Janjão por uma agência de publicidade.
O homem não é fraco…
É meu amigo, viu ??!!

Sobre Ricardo Amatucci

Trabalhar com amor, afinco e seriedade. Chegar lá será a consequência!
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