Lancheiro por 15 dias

Pois é… De tanto que os velejadores amaldiçoam os lancheiros, justo eu é que fui pagar o pato. Há muito tempo eu confessei que nunca mais iria falar mal deles, quando na ocasião fui salvo por um – e Argentino! – quando o veleiro que eu e a Diana fazíamos charter em Angra garrou e começou a navegar sob nossos olhares de desespero na praia. Já contei essa “façanha” de novato em nosso site e também relatei com detalhes no livro “Uma família pela Costa Sul”. Vou poupar você, leitor dessa lengalenga novamente.
O fato é que agora, em julho, eu queria fazer a Expedição na Hidrovia Tietê-Paraná e só havia um jeito: aceitar o oferecimento do amigo Paulo Fax para fazermos na lancha dele, uma 15 pés aberta.
Por aí você já pode imaginar: um casal e uma filha de 10 anos, mais barraca, comida, roupas, eletrônicos (rádio, GPS, GPS reserva, máquina fotográfica, filmadora), tudo com seus acessórios e carregadores respectivos. Além disso, tivemos que achar lugar para eventuais caronas do próprio Paulo, com toda sua bagagem, pois seu veleiro teve problemas e não conseguiu levá-lo para a largada. De proteção havia somente um bímini, de maneira que se chovesse, nós e as coisas ficaríamos bem molhadas.
E lá fomos nós com um motor de 75 cavalos empurrando a 27 nós a lanchinha Tietê abaixo.
Para um velejador, andar nessa velocidade é novidade. Claro que essa velocidade não é de cruzeiro, mas nos picos entre uma parada e outra, quando ficávamos entediados de chacoalhar esperando os veleiros.
Deu pra perceber direitinho as diferenças do casco entre a lancha e um veleiro. A primeira foi idealizada para planar, portanto seu “ótimo” é com velocidade, o que explica de certa maneira porque vemos tanto os lancheiros correndo pra lá e pra cá. A navegação em baixa velocidade é desconfortável, pois o casco, muito leve, chacoalha bastante. Se paramos, ao contrário do veleiro, o que apruma ao vento é a popa e não a proa. E por causa do peso do motor (e – confesso – do capitão), quando as marolas vinham um pouquinho maiores, embarcavam no poceto de popa.
Por causa da velocidade, o controle – que ao invés de uma cana de leme se dá por um volante igual ao de um carro – te que ser 100% do tempo, virando pra lá e pra cá, para controlar a direção. E com a mão firme. Nada de deixar entre as pernas ou no piloto automático.
O resultado é que no fim do dia a dor nos ombros e nas costas ficava grande. No caso da lancha que usamos, a posição do volante em relação ao piloto também é desconfortável. Se sentamos, não enxergamos direito o que vem pela frente. Se em pé, o volante ficava muito baixo e eu tinha que ficar curvado pra frente.
Desconfortos à parte, uma coisa é certa: na lancha se ganha muito tempo. Não foi raro chegarmos bem na frente em algum ponto paradisíaco, desligarmos o motor e tomar um lanche (até um queijo e vinho!) enquanto esperávamos a turma chegar, curtindo a paisagem por vezes “pantanesca”. Quando os veleiros chegavam, tinham que seguir em frente e nós ainda podíamos ficar muito tempo ali, parados, pois em pouco tempo os alcançaríamos e ultrapassaríamos novamente.
Outro ponto positivo era a inexistência da preocupação com calado.
A mobilidade permitiu que fizéssemos lindas tomadas em vídeo dos veleiros, com travellings e panorâmicas onde a lancha passava de um bordo a outro dos veleiros pela proa, garantindo cenas maravilhosas. Coisas que só a lancha permite.
A Helena passava para bordo do “Essessim”, uma outra embarcação a motor, para brincar com sua nova amiga e vice-versa, com rapidez e segurança…

Com a lancha dá pra enfiar o casco na terra ou na praia, com a única preocupação de recolher o motor de popa, que no caso era um botão (trim) que sobe a rabeta.
Mas o desconforto do barulho é imenso. Aquele farfalhar da água e da vela que completa o clima? Esquece! Quando desligávamos o motor era uma festa de “ufas!”, “Ahs!”, e “que alívios!” que se repetiram por toda a viagem.
Nada é perfeito.
E claro, não pude deixar de passar bem perto de alguns veleiros só pra fazer marola e vê-los, chacoalhando, me xingar.
Afinal, lancheiro é lancheiro, mesmo que por poucos dias…

Sobre Ricardo Amatucci

Trabalhar com amor, afinco e seriedade. Chegar lá será a consequência!
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4 respostas a Lancheiro por 15 dias

  1. Natalie diz:

    Calma!!! Essa lancha é uma defensa!!! rsrsr
    A familia Amatucci fez a diferença na expedição! Vcs são demais!

  2. Cristina Berringer diz:

    oiii
    afinal todas as experiências são válidas, e cadê as fotos…. bjs

    • tangatamanu diz:

      Tão aí mais atrás. Devagarzim vou postando… foram umas 1500 fotos… preciso juntar dinheiro pra mandar revelar… (risos).

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