Confissões de um velejador II

Quem não se comunica…

Foram 15 dias com mais de 20 pessoas que se falavam o dia todo pelo rádio VHF. Isso claro, quando o Paulo Fax deixava a faixa livre o que era raro. O que não era raro era vê-lo com 2 rádios em canais diferentes falando com 3 ou 4 pessoas ao mesmo tempo. Duas pelo rádio (uma em cada canal), uma na própria embarcação, e – berrando – com outra numa embarcação próxima. Num só dia ele acabou com a bateria de nada menos que três rádios. Não sei onde arrumava tanta coisa pra falar…
Uma de suas frases mais repetidas foi “Essa lancha é uma defensa”, referindo-se ao casco de “plástico” que – dizia ele – podia encostar em qualquer veleiro sem marcar o costado, para desespero dos comandantes que corriam colocar defensas (de verdade!) ao menos sinal de aproximação.
E tome encostada nos bordos. E a cada uma, a frase se repetia: “Não se preocupe, essa lancha é uma defensa…”.

Mas em duas semanas pudemos ouvir muita coisa interessante pelo rádio. Num determinado momento a flotilha afastou-se e a comunicação ficou truncada. Nesse instante um dos interlocutores solicitou educadamente que a mensagem fosse repetida:

– Pode repetir? A transmissão chegou meio “corroída”…

E olhe que nem estava chovendo. Mas o chiado continuava e um comandante não agüentou, e mandou bala com seu sotaque interiorano: “Acerta esse isquéch do rádio!”.

Mais adiante uma chamada geral:
“Atento veleiros, alguém na “escota”? Ignorando que se alguém estivesse ocupado em caçar alguma vela não poderia estar na escuta.
Num belo dia um dos veleiros – o Zip – saiu das vistas do Comodoro, àquela altura já apelidado de “Pomodoro”. Pelo rádio ele lançou um pedido: “Se alguém estiver com o veleiro Zip à vista, por favor, avise”. Logo veio a resposta de um comandante provavelmente empolgado com as eclusagens: “Estou com o veleiro Zip a meu montante’…
Preocupado com a citada correnteza rio abaixo que poderia dar trabalho à navegação, um outro comandante perguntou afoito: “Após a eclusa a corrente é contra ou a favor?”.
Mas segurança é tudo numa expedição como essa, e a cada coisa estranha avistada, como uma bóia na margem, ou uma embarcação maior vindo ao encontro da flotilha, os veleiros iam se comunicando: “Por aqui é preciso cuidado porque há muito “tráfico” de embarcações maiores…” – disse um deles.
E como o pó das cidades do interior àquela altura manchassem as camisetas de um vermelho indelével, entre as senhoras de bordo veio logo o conselho: Pra lavar, o bom é aquele “sabão em pó líquido”…
Como você pode perceber, não houve quase “pobremas” de comunicação durante a expedição.
“Menas” esses que eu citei…

Sobre Ricardo Amatucci

Trabalhar com amor, afinco e seriedade. Chegar lá será a consequência!
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