A foto mais cara do mundo. Vale?

Essa foi tuitada pelo amigo Hélio, do blog do Maracatu. Fui lá ver o artigo em questão. Tratava-se da foto mais cara do mundo vendida por nada menos que 4,3 milhões de dólares.
Hoje algo como 7,5 milhões de dinheiros do Brasil. A foto é essa aqui ao lado, do artista alemão Andreas Gursky.
Gursky é conhecido pelas fotos de até sete metros quadrados expostas no Moma de Nova York, no Centro Georges Pompidou de Paris ou no Tate Modern de Londres. Eu pergunto: Vale?
Como diz um amigo meu, “as coisas valem o que pagam por elas”. Pela lógica, se pagaram, é porque vale…
Eu não pagaria. Explico.
Minha formação é em artes. Estudei, fiz faculdade, me formei dei aulas num das melhores escolas de São Paulo muitos anos, ensinando história da arte, estética entre outras matérias. Iniciava o curso e no primeiro dia perguntava às crianças “o que é arte?”. A resposta vinha durante o ano e no ultimo dia o mesmo papel com a resposta do primeiro dia era devolvida para que eles refletissem sobre a primeira resposta, depois de um ano de vivência e estudos, desde a pré-história até os dias atuais. Aprendiam por exemplo, que cada sociedade decide, em sua época, o que vai valorizar como arte ou não, mas que as sociedades vindouras poderiam reconsiderar essa classificação tempos depois, valorizando-a ou relegando-a ao esquecimento. Assim foi com Van Gogh, cuja morte na miséria jamais poderia mostrar o futuro milionário de suas obras. Essa aqui ao lado você já conhecia, certo? Mas sabia que há 3 versões dela? Pois é, conhecer a vida, a trajetória do trabalho e obra do artista, ajuda na hora de observar sua obra atual. Saber por exemplo que esse era o quarto onde ele vivia com Gauguin, na sobreloja de um bar, e que sua loucura já se apresentava. Que eles não tinham dinheiro para comer pois gastavam em tintas e telas o pouco que sobrava entre um sanduíche e uns goles de absinto… Dá uma outra visão do quadro.

Aprendiam também que um quadro tem muitas maneiras de se olhar. Infelizmente nosso preconceito nos diz que um quadro só é “bom” quando entendemos – reconhecemos visualmente – seu conteúdo, ou mesmo se penduraríamos ou não na sala de casa. Não é bem assim. A inovação, a técnica, a composição dos elementos, equilíbrio, cores, texturas, etc, etc, e etc, brincam sob nosso olhar curioso, provocando sensações e interagindo com nossos sentidos. Isso também é arte e não precisa ser pendurada na sala. Basta abrir a cabeça e deixar que a criança saia lá de dentro por uns instantes.
Podemos também buscar a intenção do artista, captar sua técnica de reprodução do efeito da luz, o jogo de sombras, a perspectiva ou a falta dela. E jamais, sob nenhuma hipótese, observar uma pintura feita na idade média, com o mesmo olhar que outra, realizada no renascimento, por exemplo. Épocas diferentes, técnicas mais ou menos desenvolvidas, materiais descobertos fazem desse olhar uma viagem pela história da humanidade.
Poderíamos ficar aqui dias falando sobre isso. Mas vou poupá-lo leitor, afinal a coisa aqui deveria ser sobre vela, não é?!
Ah, a foto milionária. Não vale. Esteticamente valoriza o que há de mais básico numa composição: o equilíbrio conseguido através da simetria. Coisa de escolinha. Visualmente são faixas intercaladas de cores, texturas, com tamanhos diferentes. A imagem é dividida a 50%. Metade céu, metade grama e água. Poderia ter usado a regra dos 2/3. Daria no mesmo. Que os intelectuais e críticos de plantão me perdoem a heresia mas achei bem fraquinha…
Nossa sociedade, mais do que nunca valoriza coisas que nenhuma ou pouca importância têm, cada dia mais. Basta dar um pulinho no youtube e ver quais os vídeos mais assistidos. Só bobagem. Como esse lixo com mais de um milhão de views. A perenidade desse tipo de produto de mercado – como a foto de Gursky – fará com que não perdure mais que algumas gerações, se tanto. Afinal, amanhã novas bobagens surgirão e elas têm que ser vendidas. Hoje Orkut, amanhã Facebook. Hoje netbook amanhã tablet. Depois de amanhã? O que sobreviver vira arte. O que morrer ou for substituído pela versão 3.1 era marketing: azar o seu.
Pra quem gosta de foto, dá uma olhada numas fotos do “ilustre desconhecido” – mas meu amigo Augusto Froehlich no Facebook. Não sei se vai dar pra entrar nos álbuns de fotos dele sem ser “amigo” mas tenta que vale à pena (ou pede pra ser amigo e diz que leu aqui). Acho que as dele valeriam alguns milhares de reais.

E pelas minhas contas, se a foto vale 7 milhões e tem 7 metros quadrados, aquela lá em cima, pela área deve valer pelo menos 1,5 milhões. Vamos descontar porque é cópia e não o original. Que tal 50% de desconto? Tudo bem. Vamos arredondar. Alguém me paga 500 mil que eu mando atachado.
A minha aqui ao lado também é bonita. Por uns 10 mil eu mando ampliar e entrego em casa com moldura. Vai aí?

Sobre Ricardo Amatucci

Trabalhar com amor, afinco e seriedade. Chegar lá será a consequência!
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.