Outro conto de Natal…

Era uma vez um menino que cresceu e virou homem. Em sua trajetória pela terra, passou por muitas e muitas situações onde sorriu, chorou, brincou, amou, foi feliz e triste. O homem casou, descasou, casou de novo, teve filhos, envelheceu, adoeceu e chegou ao final da sua vida.
No leito, cheio de tubos e medicações, quase nada lhe restava a fazer a não ser conviver com suas lembranças. Cada uma delas foi revisitada e repensada. A cada situação ele se perguntava se havia acertado ou errado, se havia arrependimento pelo tempo perdido, pela vida desperdiçada, ou se as boas lembranças iluminavam sua mente naquele momento… As respostas variavam conforme a situação.
Então ele pôs-se a imaginar que isso tudo eram embrulhos e que ele os colocava em uma balança. Cada pacote tinha um tamanho, dependendo do fato. E cada pacote, independente do tamanho, tinha um peso. Más ações, do lado direito da balança. As boas, do outro. E assim, de olhos fechados ignorava as enfermeiras que entravam e saíam que espetavam vez por outra seu braço. As vozes iam ficando longe e seu pensamento apenas colocava caixas de um lado e de outro da balança. As brigas sem solução pra lá, os pedidos de perdão pra cá. Os netos sorrindo num domingo ensolarado quando fizeram um piquenique num lado. A briga pelos bens na separação do outro.
E assim passaram-se horas e horas. Ou seriam dias? Ela já não sabia mais. E não se importava. Tudo o que ele queria era saber no fim das contas, pra que lado a balança ia pesar mais. Ao fundo ele ouvia vozes. Acho que visitas pensou logo. Recontou os embrulhos da balança. Parecia equilibrada. De repente percebeu: não. Não estava equilibrada. O lado direito pendia mais. Estava mais pesado. Ele tinha sido uma pessoa má então? Sentiu um suor frio e um descorar no rosto. Estava realmente preocupado com aquilo. Não queria deixar o mundo sem a sensação de não ter desperdiçado sua existência apenas com as futilidades que agora, percebia não valiam nada. Seu carro novo que enferrujara, sua casa enorme que agora estava tão vazia que só os cachorros eram ouvidos. A grama bem cuidada dera lugar ao mato alto. Tinha dinheiro numa conta de banco. E uma aplicação. Mas pra que? Que importava? Pra que tudo aquilo se dependia de alguém pra fazer cocô?
Foi perdido nesses pensamentos que ele repentinamente ouviu a voz – acho – de uma enfermeira. Ele voltou por alguns instantes à consciência do ambiente. Foi quando ouviu “senhor, tem uma pessoa que quer vê-lo”. Em seguida ele ouviu uma voz miúda e carinhosa  que bafejava em sua orelha: “obrigada, vovô, por ter me ensinado o amor incondicional naquele dia de Natal quando o senhor tirou o sobretudo e entregou para aquele pedinte na chuva”.
Se lembrou: esquecera-se de colocar esse pacote na balança. Ele então olhou para sua balança e em seus pensamentos e notou que ela vagarosamente pendia para o lado esquerdo, até tocar o chão. Ainda pode perceber um beijo doce na bochecha. Sua mente esvaziou. Uma paz invadiu seu espírito de uma vez por todas. Agora ele via sua mãezinha de braços abertos que o recebia num lindo jardim florido, onde o sol brilhava num céu azul de tarde. Já não sabia se era sonho ou a nova realidade que aguardava aqueles cuja balança pende para o lado certo…

Feliz Natal da família Tangata Manu!

Sobre Ricardo Amatucci

Trabalhar com amor, afinco e seriedade. Chegar lá será a consequência!
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4 respostas a Outro conto de Natal…

  1. miriam diz:

    Lindo!!!! Feliz Natal pra essa familia linda que é a de vcs. bjs miriam

  2. Linda mensagem!
    Um feliz natal e um 2012 de muitas aventuras!
    Mauriane e Luiz

    • Tangata Manu diz:

      Mauriane e Luiz, obrigado pela visita e pleo comentário. Que 2012 traga a realização dos sonhos de seu Lagoon, além de bons ventos e bons vinhos! Arrivederci!

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