Notícias do inferno: sobrevivente conta sobre naufrágio nas Farallones

Bryan Chong, um dos três únicos sobreviventes da tragédia com o veleiro “Low Speed Chase” no qual 5 pessoas morreram na região de San Francisco, Califórnia, conta sua versão de como a coisa toda aconteceu numa narrativa emocionante. Se você quiser ler o original em inglês, clique aqui. Já se preferir uma versão resumida numa tradução tangateanamente livre dos principais trechos, abaixo sua carta publicada na web:

O início

“Havia oito tripulantes a bordo: um profissional, seis experientes e um marinheiro de primeira viagem, animado para sua primeira regata. É sábado 14 abril de 2012, por volta de 8:30 da manhã. Deixamos o San Francisco Yacht Club e nos dirigimos através da baía, passamos pela área de largada, quando Alan pega o rádio e diz em um forte sotaque irlandês: “Farallon comissão de regatas, Low Speed Chase fazendo check-in. Oito pessoas a bordo. Confirma?”. Nenhuma resposta. Ele repete e a voz no receptor soa de volta: “Confirmado, Low Speed Chase. Obrigado”.

Nós levantamos nossas velas percorrendo a área inicial, verificando ventos e correntes e começamos a trabalhar uma estratégia. Enquanto isso, a equipe fazia as verificações de velas, linhas, equipamentos de segurança, e de roupas. Hoje a nossa estratégia de partida é simples: evitar queimar a largada. Isto é especialmente importante dada a maré baixa e os ventos fracos.

Estamos bem atrás da linha de largada. A contagem regressiva continua, mas alguma coisa nos distraiu. Percebemos nossa posição ligeiramente atrás da linha de partida. O ar está parado e nós estamos tentando aparar nossas velas para espremer tudo o que pudermos a partir de um nó de vento. Estamos boiando para trás em direção à ponte. Decidimos ancorar para prevenir nosso “progresso”. Finalmente, o vento começa atrás de nós. Desalojar a âncora é outro desafio mas com um guincho, uma adriça, e algum músculo de Marc, a tiramos do fundo da baía. Nosso início fracassado nos custou mais de uma hora. Nosso objetivo para a corrida agora mudou e a única vitória que estamos esperando é evitar um desastroso DNF…

O céu está claro e o vento agora é de 20-23 nós. Sempre foi difícil para mim avaliar altura ondulação da água. Cada ondulação tem sua própria personalidade. Parece-me que estão na faixa de 3 a 4 metros com séries maiores em torno de 5 metros.

A perna é no contra vento e tranqüila. Tudo somado, está se transformando em um belo dia no mar com as condições conforme o esperado. O vento e as ondas são grandes mas com velocidade e direção constantes. Nick, Alan, Jordan, Jay e eu, todos se revezam na roda de leme, mantendo a velocidade entre 7,5 a 8,5 nós. O clima é descontraído no barco. Aceitamos o nosso lugar na parte de trás da flotilha e então não há necessidade de arriscar equipamentos e a segurança. Nossa meta não é sermos agressivos. Esta é a minha primeira corrida aos Farallones – uma regata que eu queria fazer há anos. Minha expectativa aumenta à medida que nosso veleiro se aproxima das ilhas.

Volta à Ilha

As Ilhas Farallon possem uma beleza árida e assombrosa, mas não há tempo para apreciarmos a paisagem à medida que nos aproximamos. As ondas e o vento constantemente formam cristas brancas. Como as condições pioraram eu estou na vela principal e Alan – de longe o melhor piloto com experiência em oceano – está no leme.

Logo nos aproximamos do primeiro ponto rochoso no canto nordeste da ilha. As ondas são muito maiores. Pouco tempo antes vimos outro barco passar. Atrás de nós, um barco parece estar em nossa linha.

Há um vídeo no YouTube mostrando o veleiro “Deception”, de 50 pés, e vários barcos passando pela ilha. Eles estão cerca de uma hora antes de nós. No vídeo podemos ver a a diferença no crescimento das ondas antes, durante e após passarem pela ilha. O vídeo não faz justiça à intensidade das condições daquele dia. Mas dá um boa idéia para quem não estava lá.

Farallones do Sul é formada por duas ilhas principais que formam um conjunto de braços para o norte. Entre os dois pontos mais a norte é que se manobra para chegar ao próximo ponto.

Muitas pessoas – imprensa, amigos e familiares me perguntaram o quão perto das pedras nós estávamos. Na verdade, esta é uma das perguntas mais difíceis de responder, pois meu foco era quase puramente manter uma distância do início da zona onde as ondas quebravam e ficar no swell. Ficar longe das pedras era uma preocupação secundária.
Quando nos aproximamos do segundo ponto eu estimo que estávamos uns 100 metros de onde quebravam as ondas e ninguém a bordo comentou nada sobre isso. Foi então que nos deparamos com o maior onda que já vi. Ela começou a formar sua crista mas passamos por cima antes que ela quebrasse. Trinta segundos depois, não teríamos tanta sorte.

A onda

Eu vi uma outra onda se aproximando a distância. Ela estava vindo da mesma direção que os swells mas era uma massa enorme. Antes, eu já vira grandes ondas mas essa é diferente de tudo que já vira, tirando as grandes ondas em vídeos de surf. Quando a onda se aproxima ela começa a se achatar e formar a crista. E no momento em que nosso barco a encontrou não havia rota de fuga. Alan orçou o barco na onda e o Low Speed Chase subiu. Segundos depois ela já estava quebrando. Estávamos indo na direção da onda a 10 nós de velocidade e ela se quebrando sobre nós. Eu travei meu braço direito na linha de vida e me praparei para o impacto. A última coisa que vi foi o barco inclinar e virar e uma massa de água caindo sobre nós… Um único pensamento passou pela minha cabeça: “Isso vai ser ruim”.

Após o impacto

Eu fiquei submerso até que o veleiro endireitou-se sozinho. Confuso e desorientado eu olhava em volta. Nick e eu éramos os únicos que ainda estávamos no barco.
As velas estavam rasgadas, o mastro quebrara e cada dispositivo que flutuava tinha sido arremessado para fora. Nós imediatamente começamos a tentar trazer os tripulantes para dentro do barco mas uma segunda onda nos atingiu por trás. Esta arrancou-me fora do barco, na área de arrebentação. Nick mal conseguiu permanecer a bordo quando o barco foi jogado pelas ondas nas rochas. Eu não posso dizer se eu estive na água por um minuto ou uma hora, mas, segundo Nick foram cerca de 15 minutos.

As pessoas me perguntam se eu nadei para a praia. A melhor maneira para descrever a água na arrebentação é uma máquina de lavar cheia de pedras. Você realmente não nada. A água me levou para onde ela queria me levar, e quando eu fui capaz de finalmente subir nas rochas de baixo eu ouvi gritos à distância. Era o Nick pedindo para eu chegar a um lugar mais alto. Juntos, vimos Jay um pouco abaixo da linha da costa. Ele estava fora da arrebentação das ondas mas preso em uma rocha cercada por falésias. Pelo que pudemos ver, ninguém mais tinha sido capaz de subir nas pedras em segurança.
A Guarda Costeira Americana e a Guarda Aérea Nacional nos resgataram com presteza e profissionalismo. Temos sorte de ter esse tipo de resgate em nosso país. Se estivéssemos em outro lugar é possível que Jay, Nick e eu não tivéssemos sido resgatados.

Reflexões

A comunidade da vela pode querer saber o que poderia ter sido feito de diferente nesse dia. Tudo realmente gira em torno de um amplo compromisso com a segurança. Essa preparação acontece antes de pegar o barco para uma regata. Quando a tripulação conversa geralmente tratam de ventos, correntes, táticas, regras ou os acontecimentos do dia – mas não se fala sobre de segurança. Eu quase nunca ouvi conversas sobre os benefícios dos modelos de coletes salva-vidas, diferentes casacos, prós e contras de amarras ou vejo alguém praticando homem ao mar nos exercícios de regatas.

Tivemos durante toda a regata os equipamentos de segurança obrigatórios instalados incluindo duas linhas de vida. Todo mundo estava usando coletes salva-vidas mas nenhum de nós estava atado à linha de vida quando a onda nos atingiu.

Eu não posso falar por outros velejadores mas eu atingi um nível de conforto, onde eu só me amarro à noite ou quando as condições são realmente ruins. É simplesmente um mau hábito que se formou devido a uma falsa sensação de segurança no mar. “Além disso”, eu costmava dizer para mim mesmo: “ah, eu posso me amarrar quando algo de ruim estiver para acontecer…”.
É óbvio para mim agora que eu deveria estar preso no barco em cada oportunidade possível. Algumas medidas de segurança podem realmente limitar manobras, mas se você for gastar uma hora timoneando, trimando ou ficar andando pra lá e pra cá no mesmo lugar, por que não se amartrar? Há preocupações legítimas sobre ser esmagado pelo barco num naufrágio. Esses 15 minutos na água foram pra mim os mais assustadores da minha vida. E garanto: o barco era o melhor lugar para se estar – no interior ou no cockpit.

Até o acidente, eu acreditava que me atar à linha de vida ou não, fosse uma escolha pessoal. Mas agora eu penso que isso se estende além da segurança indivídual. É para a equipe como um todo. Se eu estivesse amarrado quando a primeira onda nos pegou, eu precisaria me desatar para ajudar as pessoas que tivessem caído do barco e então eu teria sido atingido pela segunda onda e ainda assim acabaria caindo na água. As tripulações precisam estabelecer estratégias de amarração. Uma pessoa que cai no mar pode colocar toda a tripulação em risco, com os outros tendo que se desamarrar para manobrar o veleiro de volta em sua direção.
Eu realmente me considero sortudo por ter uma segunda chance na vida com minha esposa e meu filho de 8 semanas de idade. Olhando para trás, havia uma série de fatores que podem ter me ajudado a sobreviver naquelas águas. Depois de anos na proa de um veleiro de regata, eu uso caneleiras almofadadas e joelheiras de neoprene, luvas com dedos inteiriços, boas roupas de mau tempo, e não de tecidos de algodão. Eu também uso meu dispositivo autoinflável de flutuação pessoal. Além disso, os treinamentos numa academia que ganhei da minha esposa ano passado foram inestimáveis. A sorte realmente estava do meu lado, mas eu também acho que deixei a porta aberta para ela.

Esperemos que este incidente venha estimular uma discussão mais ampla sobre a segurança veleiro. No entanto, a maior lição que eu aprendi sobre esse dia não estava em nenhum equipamento. Tratava-se de assumir a responsabilidade pessoal para minha própria segurança. Nosso EPIRB, dispositivo de rastreamento por GPS ativado no contato com a água, felizmente funcionou como planejado, mas quem verificou por duas vezes as baterias naquela manhã? Não fui eu e não me pergunte quem o fez…

O que desejo é que minha tripulação ou a comunidade náutica nunca passe pelo que nós enfrentamos neste trágico acidente.
Neste fim de semana ouvi uma citação de um discurso de 1962 por John F. Kennedy para competidores da América’s Cup que em minha mente capta a essência de nossa fascinação com o mar:

“Todos nós temos em nossas veias o mesmo exato percentual de sal em nosso sangue, que existe no oceano, e, portanto, temos sal no nosso sangue, nosso suor e em nossas lágrimas. Estamos ligados ao oceano. E quando voltamos para o mar, seja para velejar ou para assistí-lo estamos voltando de onde viemos.”

Alan, Marc, Jordan, Alexis e Elmer. Fiquem ligados. Uma dia vamos terminar essa regata juntos…

Bryan Chong”

Sobre Ricardo Amatucci

Trabalhar com amor, afinco e seriedade. Chegar lá será a consequência!
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17 respostas a Notícias do inferno: sobrevivente conta sobre naufrágio nas Farallones

  1. Airton diz:

    È triste ler uma notícia assim relatando uma tragédia, mas como tudo na vida por pior que seja tem algo de bom a extrair, nesse caso, uma lição. Nós que nos preparamos para a Refeno, vamos revisar tudo o que diz respeito a segurança em nosso barco.

    • Tangata Manu diz:

      Pois é… O que eu achei mais importante foi quando ele disse que alguém revisou as pilhas do Epirb mas não teria sido ele, e isso foi uma lição de pró-atividade e preocupação com a segurança… Sempre achamos que “alguém” vai fazer… Bons ventos até Noronha!

  2. btaveira diz:

    Impressionante o relato – cria um alerta pra todos nós que vamos ao mar, não só para os que fazem longas jornadas.

    • Tangata Manu diz:

      Isso mesmo. Segurança, praticar o que nem pensamos que um dia vamos precisar como acionar pirotécnicos, buscar homem ao mar, pilhas no facho holmes… coisinhas simples e até divertidas, mas que podem salvar nossa vida !

  3. Aloisio S Ferreira - veleiro "Obatalá" - Neo25 diz:

    Realmente uma tragédia ! Na verdade nunca treinamos ou nos equipamos adequadamente para situações adversas. Procuramos sair ao mar sempre em condições confortáveis. Quando o vento sopra com maior rigor preferimos ficar batendo papo no cockpit ou na varanda do bar apreciando o cenário. Por isso, nunca estamos prepados para enfrentar tais situações, e na hora do “vamos ver” tudo é feito no improviso. Que esses episódios sirvam com certeza para mudar nossas atitudes em relação à segurança!
    Aloisio S Ferreira – veleiro “Obatalá” – Neo 25

    • Tangata Manu diz:

      Oi Aloisio, vc tem toda razão. Devemos treinar esse tipo de situação, fazer cursos e estar + perto de quem sempre tem a nos ensinar. O mar não é uma rede de balanço…
      :-0

  4. Fred diz:

    A frase que me deu inveja “A Guarda Costeira Americana e a Guarda Aérea Nacional nos resgataram com presteza e profissionalismo. Temos sorte de ter esse tipo de resgate em nosso país. Se estivéssemos em outro lugar é possível que Jay, Nick e eu não tivéssemos sido resgatados.” Queria eu ter uma “Guarda Costeira Brasileira”.

    • Tangata Manu diz:

      Me too !!🙂
      Embora o Salvamar preste um bom serviço, uma guarda costeira só para esse tipo de coisa e para segurança cairia bem !!

  5. Pingback: Notícias e reflexões | Diário do Avoante

  6. Que coisa amigos!! Lendo o relato só pude lembrar das clínicas do Hill – H2Orça. Hill: vc está se adiantando no nosso tempo.

  7. Ronaldo Coelho diz:

    É isso ai Ricardo!
    Com segurança não se brinca, nem se descuida.Este tema sempre me fascinou.
    Como me safar se algo acontecer, e a situação fugir ao controle.Resolvi dotar mei caique inflavel, com mastro,vela , bolina e leme….bolsa de abandono etc. Para ter mais uma chance se o veleiro afundar.
    Foi uma pena o acidente.Muito triste as perdas de vida.Pena a tripulação estar despreparada e desatenta com o movimento das ondas.Isso é o mar.Ronaldo Coelho – vel feitiço

  8. Com segurança não se brinca, é verdade.Neste caso a única segurança válida seria não esquecer que havia uma ilha por perto.

  9. Márcio Rezende diz:

    Durante uma regata em Angra no meio de um sudoeste vi um cara no mar. Ele estava de colete e alguém lhe jogou uma boia laranja.. As ondas impediam de vê-lo e tudo ficou muito escuro apesar de ser 15 horas. a REGATA FOI ENCERRADA PELO RÁDIO PARA RESGATAR O TRIPULANTE NO MAR. Foi resgatado por outro barco.Se Este tripulante estivesse sem colete acredito que seria muito difícil de recupera-lo.

  10. Difícil imaginar em uma regata ou travessia com condições normais de mar, ter a tripulação atada a linha de vida, -em condições normais. Com certeza, o maior perigo que enfrentamos e’ Homem ao Mar, quem ja’ treinou ou presenciou , sabe da dificuldade do reembarque do tripulante, pois normalmente quando acontece, não são condições normais e o mais difícil e’ localizar a pessoa. Tive a oportunidade de velejar em aguas americanas e realmente a Cost Guard e’ de uma eficiência extraordinária, que só e’ encontrada lá, e em alguns países da U E, mas aqui no Brasil o serviço de salvamento no mar esta completamente sucatiado e despreparado, portanto se for ao mar, avie-se em terra, verificando epirb, balsa, linha de vida, previsão, estaiamento, e demais itens que cada comandante julgue importante. Por falar em Epirb, tivemos um caso a pouco tempo aqui no Sul, que o aparelho foi acionado por um veleiro estrangeiro , e algum ” mane'” demorou mais de um dia para acreditar que não era alarme falso, se não fosse por um navio comercial, os griingos tavam nadando até hoje.

  11. Ruy diz:

    Desculpe se estou falando o óbvio, mas é difícil avaliar se a Linha de Vida seria útil neste caso, talvez até um perigo. Ficar à merce de um barco jogado nas ondas, sem controle, barco inclinando (ou emborcando) com tripulantes presos pode ser até mais fatal. Houve a meu ver excesso de confiança do timoneiro ao passar perto demais (100 metros da arrebentação é suicídio, verdadeira temeridade devido às condições relatadas.) No video postado os barcos passaram a uma distância segura.
    Ruy

    • Tangata Manu diz:

      Olá Ruy,
      Obrigado por sua participação. É a tal estória, usar ou não usar? No texto ele mesmo diz-se favorável mas deixa a questão meio dúbia…
      Eu não sou regateiro sou cruzeirista. Pra mim é mais fácil: eu uso…😉
      Abraço
      Ricardo

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